No que toca à competição internacional do IndieLisboa 2026 – Festival Internacional de Cinema, o grande prémio de curta-metragem EMEL foi para How to Catch a Butterfly (2026), de Kiriko Mechanicus. O primeiro documentário da cineasta holandesa-japonesa é uma obra ensaística na qual utiliza o seu próprio corpo e voz num gesto crítico. Deste modo, confronta e desafia o fetiche racial e a violência sexual inscrita em corpos de mulheres asiáticas.
O filme baseia-se no massacre de um Spa em Atlanta, em 2021. Quando Robert Aaron assassinou oito pessoas, seis delas mulheres asiáticas, alegando que estava simplesmente a eliminar a tentação sexual que dizia precisar de destruir.
Kiriko Mechanicus não se limita a observar o horror. Envolve-se, de forma quase masoquista, através de uma abordagem radical, escrevendo cartas ao assassino. Com isto, não procura encontrar nele humanidade, mas sim descobrir por que a sua violência lhe parece estranhamente familiar. Para a realizadora, Robert é só mais um caso defetichismo em relação a mulheres asiáticas, o mesmo do qual foi vítima durante toda a sua vida.
A sequência inicial é banhada por uma luz vermelha, onde vemos Kiriko, sentada na cama, a despir um quimono, com uma referência à ópera “Madame Butterfly” (1904). Em segundo plano, ouvimos uma reportagem sobre o tiroteio, que cria um contraste que nos posiciona diretamente no ponto central do filme: quando é que uma fantasia ocidental se torna um alvo?
Kiriko sobrepõe a confissão do assassino a entrevistas com homens em dating apps, juntamente com planos da cidade à noite, criando uma sensação sufocante de perseguição. Com o intuito de perceber a dimensão deste fetiche, questiona-os sobre o porquê de quererem uma mulher asiática. As suas respostas são, em grande parte, diretas e revelam que estes acreditam que as mulheres asiáticas foram criadas, entre outras razões, para “serem escravas”. Confronta, ainda, a pornografia como um sistema de produção deste desejo e a forma como os corpos femininos são erotizados e hierarquizados segundo lógicas misóginas e racistas.
Ao longo da curta-metragem, acompanhamos a viagem de Kiriko ao Japão, com sequências de planos filmados com a câmara na mão e conversas com a sua mãe, onde dissecam o estereótipo da mulher japonesa frequentemente submissa, “calada e educada”, do qual são alvo. Discutem a emancipação que parte de uma recusa consciente de se adequarem ao olhar ocidental, mas questionam, também, o lado performativo a que muitas mulheres, incluindo Kiriko, se sujeitaram para saciar o desejo de um homem, bem como se alguma vez sentiram um prazer perverso ao serem a “mulher japonesa” que eles desejavam. Trata-se de um honesto momento de introspeção e desconstrução, no qual confrontamos as condições que moldam o nosso olhar.
É um filme difícil de ver e deve sê-lo. Não nos oferece conforto, mas dá-nos um espelho, numa meditação perturbadora sobre a forma como tantas mulheres vivem um papel escrito pelo seu predador.

Na mesma sessão de curtas e, curiosamente, logo a seguir a How to Catch a Butterfly, o cinema volta a tornar-se um espelho, desta vez para nos (re)lembrar da primeira vez que sentimos desejo ou, de forma mais inocente, questionámos: “Como sei que amo alguém?”
Para alguns, é uma necessidade biológica e uma resposta química. Para outros, é o sentimento mais forte que podemos experienciar e de uma importância abismal. Para uma criança, é tão fácil como respirar. Amar é simplesmente amar. Ou, talvez, nem sempre.
Em Honey, My Love, So Sweet (2025), JT Trinidad explora a inocência avassaladora por detrás da interpretação do amor pelos olhos de uma criança, que questiona e sente tudo pela primeira vez, quando ainda não há palavras certas para o descrever.
Com uma estrutura elíptica, a falta de contexto para a maioria das personagens e para o próprio espaço que filma revela que o projeto teria potencial para se desenvolver enquanto longa-metragem, permitindo que as suas inúmeras ideias fossem exploradas a fundo, como merecem. Ainda assim, a pequena “viagem” de Life (Kian Co) compensa estas limitações.
Juntamente com a sua mãe, Martha (Mina Cruz), Life procura um abrigo temporário em Times Theater, um cinema outrora grandioso em Manila, prestes a ser demolido, onde vivencia gradualmente a sua primeira experiência (e desilusão) amorosa e um primeiro despertar sexual, confrontando questões sobre identidade.
Procura respostas nos filmes que vê, em Marco (Manuel Tinio), o projecionista – que lhe fala das suas preferências físicas numa mulher, em conversas com o seu amigo, Gab (Marcus Timbas) e na relação dos seus pais, através da qual entende o desejo de garantir a felicidade do outro sem considerar a própria.
Contudo, ao contrário do que vê nos filmes, não é através de grandes declarações que o descobre, mas em gestos pequenos e banais: a presença e cuidado de uma mãe, um olhar prolongado, dar as mãos durante uns segundos a mais. Pelo meio, descobre ainda que não é tão simples como pensava. Como disse Alfredo em Cinema Paradiso (1988): “A vida não é como nos filmes. A vida é muito mais difícil”. O amor não é exceção. Traz-nos felicidade, dor, desejo e saudade. Pode ser tão fugaz, quantoteimosamente persistente. Recordamos os nossos primeiros encontros com estes sentimentos, a sua magia e confusão, que surgem tão naturalmente como respirar. De tal forma que só nos apetece gritar com Life quando o descobrimos, como um alívio ou um pedido de ajuda, por continuarmos a aprender a lidar com todos eles.
E que melhor plano de fundo que um cinema decadente, que guarda a memória de todos os apaixonados e desesperados que já passaram pelas suas paredes, para abordar esta ingenuidade infantil e o seu lento desmoronar?
“Para aqueles que nunca fomos e para aqueles que ainda nos podemos tornar.” – Honey, my Love, so Sweet (2025)
Beatriz Santos
