Fala-se já, entre a ansiedade e o nervosismo, que o Festival de Cinema de Berlim (entre 12 e 22 de Fevereiro) estará sem grandes celebridades na sua programação. Seja como for, os 22 títulos na Competição Oficial e 13 filmes na secção de primeiras obras Perspectives, prometem uma articulação marcada pela diversidade estética e geográfica, reforçada ainda por um conjunto sólido de propostas nas secções paralelas. Propomos aqui um percurso focado na robusta presença brasileira na edição deste ano — nada menos que 10 filmes atravessam as várias secções, além de mais dois, dirigidos por realizadores brasileiros, no concurso ao Urso de Ouro da Competição Oficial.
Karim Aïnouz confirma-se como um dos cineastas brasileiros de maior projecção internacional nas últimas duas décadas (Praia do Futuro, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão), agora com Rosebush Pruning, projecto que satiriza o absurdo do mundo em que vivemos hoje. O filme é inspirado em I pugni in tasca (1965), clássico de Marco Bellocchio, com argumento de Efthimis Filippou — colaborador habitual de Yorgos Lanthimos — e um elenco internacional que reúne Elle Fanning, Pamela Anderson, Jamie Bell e Tracy Letts.
A Competição Oficial inclui também Josephine, da realizadora brasileira-americana Beth de Araújo (Suaves e Silenciosas), que narra a história de uma menina de 8 anos que testemunha um crime. O filme é protagonizado por Channing Tatum e Gemma Chan, em mais um sinal da crescente circulação internacional de cineastas brasileiros.

Na secção Perspectives, dedicada a primeiras longas-metragens, o destaque vai para Nosso Segredo, estreia na realização de longa-metragem da actriz brasileira Grace Passô, em co-produção com Portugal, com um drama que explora o luto e a reconstrução de uma família negra em Belo Horizonte. Na Panorama, o Brasil aparece em Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira, uma das vozes mais consistentes do cinema brasileiro contemporâneo, cujo trabalho, atento ao cotidiano, à memória e às dinâmicas afectivas, consegue com a mesma facilidade levar ao choro ou ao riso. O filme acompanha cinco décadas de vida compartilhada de um casal, interpretado pela escritora Conceição Evaristo, e por Norberto Novais Oliveira, pai do realizador, ator em muitos dos seus filmes.
Já em Isabel, de Gabe Klinger, uma sommelière (especialista em vinhos) em São Paulo sonha em se livrar do chefe e abrir o próprio bar. Com Marina Person como a personagem-título, o filme também investiga o cotidiano, e como é possível encontrar a si mesmo na selva urbana das capitais atualmente. Ainda na Panorama, encontramos Narciso, de Marcelo Martinessi, produção paraguaia, mas que tem tanto Brasil quanto Portugal como co-produtores, nas figuras de Julia Murat e Ico Costa. No Paraguai dos anos 50, o carismático Narciso (Diro Romero), sob o regime militar sufocante, torna-se uma sensação musical e um símbolo de liberdade sexual, até ser encontrado morto amarrado à cama.
Já na secção Generation, dedicada à filmes para crianças e adolescentes, o cinema brasileiro oferece quatro filmes: A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai, transforma a brincadeira em investigação política ao convidar um grupo de jovens meninas a re-encenarem situações vividas por suas mães e avós; em Feito Pipa, de Allan Deberton, um menino de 11 anos sonha tornar-se jogador de futebol, mas enfrenta preconceito por sua personalidade delicada. Também voltamos no tempo em Quatro Meninas, de Karen Suzane, cuja história se passa em um internato feminino no final do século XIX, onde quatro meninas negras escravizadas planejam fugir. Finalmente, na animação Papaya, de Priscilla Kellen, uma semente deseja voar para evitar enraizar-se.
Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha, de Janaína Marques, na secção Forum, conduz-se por uma mulher deitada num aparelho de ressonância magnética que é levada numa viagem de carro inconsciente e sinuosa com sua mãe. No Forum Expanded teremos Floresta no Fim do Mundo, de Felipe Bragança e Denilson Baniwa, propondo um gesto de imaginação radical que articula cinema, cosmologia indígena e reflexão sobre o colapso ambiental, ampliando os horizontes formais e políticos da presença brasileira no festival.
Nota-se, neste percurso, temas como a pertença, o território e a cura atravessam muitos desta safra de filmes brasileiros selecionados este ano para a Berlinale, assim como um interesse destacado para (re)encenar a história, nacional e ao mesmo tempo familiar, que atravessa os imaginários desta cinematografia. Conhecidos ou não, serão os nomes brasileiros que iremos ouvir nesta Berlinale. E, não surpreenderá se alguns deles estiverem também presentes na festa da entrega dos prêmios.
Ian Capillé
