A 76ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) está cada vez mais próxima e apresenta-se com uma programação diversificada, mantendo o nível de originalidade e mérito que lhe pertence desde sempre. Em particular, na secção Perspectives, onde o festival invoca os novos caminhos do cinema e se abre a novas linguagens, procurando destacar e aproximar-nos de nomes emergentes que se estreiam nas suas primeiras longas-metragens. São olhares assumidamente heterogéneos que nos confrontam com questões socialmente relevantes. Esta secção transporta uma verdade lapidar: a compreensão e o alerta para os dilemas fraturantes da atualidade.
Importa ainda salientar o destaque lusófono nesta edição, que recai sobre o filme Nosso Segredo, da experiente atriz de teatro Grace Passô, aqui na sua estreia como realizadora, contando a história de uma família brasileira que procura reconstruir-se após uma perda, enfrentando memórias, isolamento e dor. O filme conta com uma colaboração entre o Brasil e Portugal, com a participação de Catarina de Sousa, da Foi Bonita a Festa e da Grãos de Imagem na equipa de co-produção, amplificando os laços criativos entre os dois países.

A diversidade proposta pelas catorze longas-metragens a concurso integra-se sobretudo em duas vertentes: numa primeira parte, focando-se numa esfera íntima de tensões de vária ordem. Por exemplo, em Truly Naked, a cineasta Muriel d’Ansembourg mergulha na adolescência e na procura incessante por conexões reais sob o peso de uma indústria pornográfica; já em “17”, a estreia de Kosara Mitic, abordando uma questão centrada no abuso sexual no contexto escolar. A esta parte juntam-se questões como a identidade (e a dúvida em relação a ela) e o isolamento, como Der Heimatlose, de Kai Stänicke, que acompanha o regresso de um homem à sua terra natal que, afinal, já não o reconhece, e Animol, do cineasta e rapper britânico Ashley Walters, centrado na deriva de dois adolescentes envoltos num agreste ambiente prisional. Esta exploração entre dinâmicas sociais e humanas arrasta-se ainda para projetos como El Tren Fluvial, da dupla argentina Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale, focado num menino de 9 anos de uma remota aldeia argentina que sonha em fugir para Buenos Aires, e Take Me Home, de Liz Sargent, cuja obra começou como uma curta-metragem e se expandiu para algo maior. Neste drama intimista, observa-se o dilema de uma jovem mulher americana, portadora de deficiência cognitiva, encarregue de cuidar dos pais adotivos idosos, em plena onda de calor que destrói a frágil rotina familiar.

Já a segunda parte é marcada por um carácter marcadamente político e geográfico, aproximando-nos de uma realidade destrutiva, acompanhada de territórios em rutura. O cinema torna-se então uma ferramenta de memória e denúncia, como em Hangar Rojo, de Juan Pablo Salatto, situado no cenário do golpe militar de 1973, ou em Chronicles From The Siege, de Abdallah Alkhatib, que nos leva a um espaço de guerra. As problemáticas geopolíticas ganham dimensão em Where To? de Assaf Machnes, ao acompanhar o encontro de um motorista palestiniano e de uma jovem israelita: ou em Filipiñana, de Rafael Manuel, expondo as estruturas de violência numa instituição social. Para completar o programa desta secção, temos, ainda, a longa-metragem de Dara Van Dusen, A Prayer For Dying, e Forêt Ivre, passado nos Alpes, de Manon Coubia. Para rematar a programação, temos ainda Han ye deng zhu, do realizador chinês Xu Zao, um filme de animação que funde a decadência do mundo real com a romantização do mundo virtual, fechando um ciclo de obras que prometem trazer muita emoção ao grande ecrã. Resta saber quais destes títulos sairão de Berlim com distinções, como o GWFF Best First Feature Award (em português, Prémio de Melhor Primeiro Filme). A decisão é tomada por três júris: Sofia Alaoui, realizadora e argumentista marroquina, que ganhou reconhecimento no festival de Sundance ao vencer o prémio de melhor curta-metragem; Frédéric Hambalek, realizador e argumentista alemão, que marcou presença na 75ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, com o seu segundo filme Was Marielle weiß (2025), selecionado para a competição; e Dorota Lech, diretora do Festival Internacional de Cinema New Horizons, em Wroclaw, Polónia.
Maria Gonçalves
