A brincadeira já começou na entrada. A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai, abriu a secção Generation (dedicada a filmes para o público infantil) da Berlinale, promovendo uma passagem pelo tapete vermelho em forma de festa e brincadeira. Até um Fofão dançando e dando cambalhotas, no melhor estilo Carreta Furacão, houve. Junto de Capai, também algumas das crianças atrizes do filme, Manuellinha, Manu, Sophia, com sorrisos de orelha à orelha, subiram no palco para celebrar aquele momento, e agradecer a presença do público que lotava a sala da Haus der Kulturen der Welt [Casa das Culturas do Mundo].
Luzes apagadas, headfones ligados (nas sessões da Generation, a Berlinale oferece sessões dobradas em alemão para as crianças, com a possibilidade de fones com áudio original), e nos primeiros minutos o filme estabelece seu enquadramento. Antes de tudo, o mundo era escuro – até que Deus começou a brincar. A brincadeira de Deus, narrada pelas crianças, era fazer um filme: luz, câmera, som. Nesta reencenação da criação do mundo, as perches são vassouras, e a câmera, uma cartolina enrolada como uma luneta. Está tudo aí. A brincadeira é a bandeira de A Fabulosa Máquina do Tempo, o espaço cênico que, pela sua própria natureza, pode ser criação, pode ser cinema, e pode, talvez, funcionar como uma espécie de suporte onde se imprimem certos sintomas sociais. Assim, a pergunta por trás do dispositivo do filme poderia ser: como brincam as crianças de Guaribas, pequena cidade no interior do Piauí, que teve um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil em 2013?
Tal premissa, a de que as maneiras de brincar sempre colocam em cena todo um imaginário, faz da brincadeira a forma do filme, e produz com certeza os seus melhores momentos. A partir das entrevistas que fazem às suas mães, as crianças encenam situações do passado: histórias de sobrevivência, de fome e pobreza, mas também histórias de aventuras amorosas, e de fugas apaixonadas. Tornadas brincadeiras, essas histórias animam no presente um passado que está logo abaixo da superfície, numa transmissão nem sempre óbvia da memória, entre uma geração e outra. Mas a máquina do tempo é também para o futuro, e, sempre brincando, as crianças dão forma às suas ideias sobre casamento, sobre moral e religião, sobre morte, sonhos, medos, e desejos. O mosaico de A Fabulosa Máquina do Tempo pode variar tão rápido quanto a troca de uma fantasia.
Mas uma outra premissa também atravessa o filme. O desejo de fazer um documentário, e de, nesse sentido, informar o seu público sobre as condições de vida naquela pequena povoação. Este desejo, muitas vezes, desvia a câmera, que perde sua mirada à altura das crianças, e tenta explicar a violência que elas e suas mães sofrem, a pobreza em que ainda vivem, e a melhora de suas vidas a partir do Bolsa Família, programa de distribuição de renda que retirou todas aquelas pessoas do Mapa da Fome, marca maior dos governos do PT no Brasil. Nada disso é pouco ou desimportante – e este que vos escreve emocionou-se mesmo nos créditos finais que contextualizam essas informações ao público internacional, enquanto exibe as imagens das crianças felizes, a dançar fantasiadas. Nada é mais importante que isso.
Ainda assim, me pergunto o quanto aquelas imagens que chamei documentais têm lugar neste filme que, pela sua alegria e desvio, está sempre a voar muito acima das explicações. Uma cena me parece sintomática: as crianças passam em frente ao bar onde há um senhor muito bêbado, que acabou de matar uma cobra enorme, mantendo-a enrolada no próprio pescoço ainda sangrando. Entre soluços e tropeções, sem conseguir olhar reto, ele tenta comer a cobra ali mesmo, dentes sobre as escamas. As crianças riem e gritam, um pouco enojadas, mas claramente não acham aquilo tão horroroso (quanto eu, pelo menos). Na cena a seguir, uma delas quer interpretar o bêbado no filme, com uma cobra de pelúcia enrolada no corpo, que ela finge comer. Afinal, quem não gosta de fazer de bêbado?
Mas essa encenação da criança, montada assim, surge sempre presa à primeira cena, à cena documental. Fica parecendo que a primeira explica a segunda, como se o filme dissesse: a criança viu isso, e depois fez aquilo. É certo que os imaginários têm que vir de algum lugar, e não é preciso dizer que crianças estão sempre a imitar o seu ambiente. Mas nada explica o porquê dela gostar de fazer de “bêbado que come cobra”. Por que ela escolhe justo esse personagem? Nem ela sabe. Nem ninguém. Se a brincadeira põe a nú o imaginário daquelas crianças, e se, por sua vez, este imaginário somatiza uma série de problemas sociais brasileiros, a brincadeira, ainda assim, é sempre irredutível a essas explicações, carregando consigo o mistério do futuro, inexplicável, sempre novo.
Eliza Capai, com certeza, afirma essa força de futuro para muito além do filme, e seu compromisso com o papel social do cinema ultrapassa os contornos desse único projeto. Nesse sentido, minha pequena crítica não atinge mais que a pele do gesto imenso que o filme performa. Um gesto anterior e posterior à sua rodagem. Não à toa, Manu, uma das crianças presentes na sessão, pode dizer por fim que ainda viaja na máquina do tempo: nunca havia apanhado um avião, nunca havia visto neve. A brincadeira, então, continua.
Ian Capillé
