«Com a cultura não se come», costuma dizer-se em Itália. Ou seja, a cultura não é rentável, não gera riqueza nem rendimento. Este é um argumento frequentemente utilizado pelos políticos para justificar cortes no financiamento da escola, da universidade e, de forma mais geral, da cultura. Na realidade, trata-se de um argumento duplamente falacioso. Em primeiro lugar, porque não cabe à cultura produzir rendimento, mas sim cultivar a mente e o espírito dos cidadãos — como, aliás, sugere a própria etimologia da palavra, derivada do latim colĕre, que significa precisamente «cultivar». Em segundo lugar, mesmo que aceitássemos o pressuposto neoliberal de que a cultura deve gerar riqueza, será realmente verdade que «com a cultura não se come»?
Como salientou Milena Gabanelli, conhecida jornalista italiana, o festival cinematográfico Il Cinema Ritrovato — criado em Bolonha em 1986 e hoje considerado um dos mais importantes do mundo na área do património cinematográfico — regista atualmente cerca de 140 mil espectadores e gera um impacto económico de cerca de quinze milhões de euros para os setores da restauração, da hotelaria e do turismo local.
A edição deste ano é a quadragésima e abre hoje, sábado, 20 de junho, encerrando no próximo domingo, dia 28. O programa é tão rico e interessante que a maioria dos bilhetes reservados aos detentores de acreditação de imprensa já se encontrava esgotada poucas horas após a abertura das marcações. O festival, dirigido por Gian Luca Farinelli, apresenta uma seleção monumental de nada menos do que 540 filmes. Não por acaso, os organizadores jogam com a ideia de que esta é uma edição «XL»: não apenas porque assinala a quadragésima edição (segundo a numeração romana), mas também porque se trata de uma edição verdadeiramente extra large, pela dimensão e ambição da sua programação.
Entre os vários filmes em programa, merece certamente uma menção especial a projeção de The Devils (1971), de Ken Russell, na versão integral da obra, tal como foi originalmente concebida pelo realizador antes dos cortes impostos pela censura. O restauro do filme e a sua apresentação no festival — já exibido no âmbito da secção Cannes Classics do Festival de Cannes — constituem um acontecimento de particular relevância no contexto italiano, tendo em conta a longa história de censura e de boicotes promovidos por setores da Igreja Católica que marcaram a receção da obra desde a sua estreia.

Para além da projeção do filme de Ken Russell, importa destacar também a exibição de Summer in the City (1971), a primeira longa-metragem de Wim Wenders, bem como um ciclo dedicado a Luchino Visconti. O festival assinalará ainda o centenário de três mestres incontornáveis da história do cinema: Roger Corman, Shōhei Imamura e Andrzej Wajda.
É igualmente evidente a intenção do festival de devolver protagonismo às mulheres que fizeram a história do cinema, tanto diante como atrás da câmara. Nesse sentido, destaca-se uma retrospetiva integral dedicada a Barbara Stanwyck, outra retrospetiva centrada em Joséphine Baker e uma exposição de grande dimensão dedicada a Agnès Varda, intitulada Viva Varda! O Cinema é Mulher. Haverá também uma retrospetiva integral da obra experimental da cineasta sueca Gunvor Nelson, ativa entre as décadas de 1960 e 1990 nos Estados Unidos e na Suécia. Através de uma seleção de doze filmes, projetados no formato original de 16 mm, o público terá a oportunidade de redescobrir uma das vozes mais singulares e inovadoras do cinema experimental do século XX.
O programa integral do festival pode ser consultado aqui.
Paolo Stellino
