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Eu, Romã, em Ti, Cinema: Fenómeno e Simbolismo

«As romãs abriram-se e estalaram com o calor, revelando os seus corações encarnados a sangrar.»1

– Oscar Wilde, in The Birthday of the Infanta

Há quem defenda que, só por mera confusão, ficou a maçã como fruto do Éden. Terei sido eu, afinal, o fruto da origem? Inescapável dos textos judaico-cristãos, isso é certo, represento sonho, prosperidade e vida eterna; para os egípcios, sinalizo nobreza e privilégio da alta sociedade2. Na Grécia antiga, relacionaram-me com a morte, mas também com a fertilidade. Quem sabe se pelo porte real, julgaram-me com autoridade para decidir da finitude e da capacidade para gerar vida. Nada disto se contesta e nada disto se consome nestas palavras. A verdade é que sou rica em antinomias: em cerimónias fúnebres, sou “(…) alimento para os que partem e levo esperança para a vida além do túmulo”3; na Antiguidade Clássica e Idade Média, o meu vestuário, capa grossa e protectora, foi ingrediente em receitas de anticoncepcionais, evidência do encadeamento entre sexualidade e morte; eu ruborizo de vergonha na incursão poética de Lawrence4, amparo o útero nesta forma de que sou feita e carrego as sementes da virilidade5. Aproveitaram o meu valor em arilos, astuciosamente oferecidos por Hades a Perséfone6, tornando-me alegoria do renascimento e das estações cíclicas.

Corre o ano de 1969 e vão buscar-me para Sayat-Nova (Parajanov, 1969), designação alterada para A Côr da Romã, com o propósito de simplesmente exprimir o mundo. A minha alma – de cor intensa e reveladora – transborda, então, para o branco do linho. Do que me componho? O que tenciono afirmar? Uns associam-me aos massacres sofridos pelo povo arménio, outros ao percurso do trovador Sayat-Nova: o seu crescimento, existência consagrada à condição de monge, o confronto da sua essência com o amor pela música, por livros e Deus7.

Eu não integro um universo narrativo, eu sou convidada de honra – estática ou fragmentada, invadida por objectos cortantes; envergonhada do meu interior, ao expôr o meu escudo em casca rija, ou esventrada sem apelo nem agravo, desnudada sem possibilidade de defesa. Parajanov, vítima de quem cerceava a liberdade de expressão, acaricia o conceito de filme, tornando-o poema; nessa poesia, eu sou o fluxo sanguíneo de Sayat-Nova, tomado das dores do seu povo; sou a seiva encarnada e derramada pela comunhão de uma etnia, procedente da invasão pérsia; nas pinturas sequenciais, eu identifico-me com a catástrofe de um lugar ceifado pela opressão. Conjuro, no entanto, “(…) sentimentos de orgulho intenso na capacidade de sobrevivência (…)”8 da nação arménia, firme na preservação da cultura cristã.

Lenda da Fortaleza Suram, de Sergei Parajanov [close up] © Direitos Reservados

Convocam-me novamente em 1985 e, desta vez, Sergei Parajanov não se cinge à dor que transborda no tecido branco; agora, querem ver-me as entranhas, explorar as minhas feridas, oferecer a minha magia. Reivindicam-me para exprimir a dádiva de um jovem que se rodeia dos muros de Suram, a fortaleza que, afinal, é o seu âmago: é a imolação propiciada à comunidade, um sacrifício individual em prol da sobrevivência colectiva. Na Lenda da Fortaleza Suram9 – com idêntica manifestação na restante filmografia do realizador que tanto a mim recorre -, há uma narrativa que é alcançada obliquamente, uma mise-en-scène alimentada por um cosmos mítico, onde o tempo real é obnubilado. 

O advento do século traz-me nostalgia, e a 2007 chamo-lhe o ano das raízes e dos fenómenos. Já não sou independente das minhas gerações passadas – a elas retorno para me reencontrar -, já não me raptam sem afinco, exijo deferência às minhas origens. Poderá parecer que olho de cima para baixo, que tenho o mundo aos meus pés, mas não me interpretem mal: a árvore sustém-nos – a mim e às minhas irmãs – e a paisagem é o afecto. Duas crianças dão às suas fantasias palavras e acções, assumindo que não só a loucura fustiga os seus espíritos; com efeito, a infância é a porta de entrada dos primeiros abalos, de lições perenes; o chão, que antes era o mesmo para ambas, divide-se em dois hemisférios: o hemisfério do altruísmo e da dignidade, e a fracção do ciúme e da mentira. Seguramente, em The Kite Runner (Forster, 2007), não estamos visíveis como nas histórias passadas, nem sequer nos elegem como representantes simbólicas; todas somos discretas, suspensas de uma romãzeira, sem que o ensinamento fique irremediavelmente na penumbra; a narrativa, é certo, sobrepõe-se à semiótica, mas após visionamento e ponderação, há um conceito que, embora presente em quase todos os exercícios, é aqui desenvolvido com uma réstia de simbolismo. A evocação da fertilidade (ou da sua ausência) dá-se no percurso do casal Soraya e Amir, culminando com paliativo de redenção; é quase como se a árvore que nos gerou, ao testemunhar o laço e o desenlace de uma aliança, tivesse regredido à condição de semente e gerado uma fresca possibilidade. Agora simplesmente estou aqui: ainda que inerte, eu “(…) exprimo a própria vida, não ideias ou argumentos sobre a vida.” Eu não “(…) significo ou simbolizo a vida, mas incorporo-a, exprimindo a sua singularidade”10.

Decisão de Partir, de Park Chan-Wook © Direitos Reservados

Em 2017, afirmo o meu reinado nas terras da fenomenologia. Eleita personagem principal de uma diegese focada em perda e desilusão, onde a natureza humana mostra a sua falibilidade e a culpa que advém das acções, em Pomegranate Orchard (Najaf, 2017), encontro-me em cada paisagem e recanto: de coroa posta na mesa das refeições, abundante no pomar de família, avistada, no último minuto, pelo negro olhar de Jala, voyeur de Sara e Qabil num falso juramento de sério reencontro. Tudo isto a câmara filma – ela não quer ser passiva, limitar a sua presença à mera tecnicidade: ela mostra a sua aptidão para moldar ideologias, direccionar razão e emoção para o recado concreto; ela almeja que o homem comum se identifique, fatalmente, com o marido que se recusa à mudança; e procura que a mulher contemporânea se reveja na esposa crédula num novo ciclo. A minha nobreza está ligada à dignidade do ser feminino: Sara é capaz de perdoar e acreditar nas boas intenções do homem; Qabil alimenta a crença de que o indivíduo tende a sucumbir ao erro, à falta de transparência, optando por fugir diante de circunstâncias melindrosas. Pomegranate Orchard conduz o espectador numa jornada pelo tempo – cíclico, repetitivo, sujeito à traição, escassez e ilusória promessa de viragem. 

The Kite Runner, de Marc Forster © Direitos Reservados

Em 2022, decido partir para a Coreia do Sul: longe se tornam Azerbeijão e o seu pomar, Afeganistão e o papagaio, Arménia e as investidas persas; este conjunto faz, agora, parte do passado. Sou destinada a conviver com a sedução, e exteriorizo uma ode à união dos corpos. Assim como Perséfone é insidiosamente guiada a comer o bago de romã (na Grécia antiga em estreita ligação com o conceito de pecado, fruto que “(…) condena aos infernos (…), insígnia de doçuras malévolas (…)”11, em Decisão de Partir12, também Jang Hae-Joon é enfeitiçado pelo enigma e fascínio da mulher fatal. Park Chan-wook quis-me exactamente como sou, heterogénea na minha convivência com as suas atmosferas cruas e oníricas, gélidas e eróticas, grisalhas e subjugantes; é uma intervenção que tem lugar, não entre os protagonistas da história (Hae-Joon e Seo Rae), mas entre o polícia e a sua (ainda) esposa, Jeong-ahn: numa das cenas, enquadrado o casal de frente para a câmara, estamos a ser cortadas – e até poderá haver quem nos veja como os corações partidos a que Lawrence alude; abordam-se os eventuais benefícios da nossa presença na vida deste par em sentido descendente, ainda que se respire uma réstia ínfima de cumplicidade; mais à frente, as circunstâncias da relação já não são as mesmas, posicionando-se Jeong-ahn como mulher convicta da sua renovada escolha conjugal, ao decidir, também ela, partir, levando o seu ventre, as suas hormonas para outro lugar. Na verdade, a predisposição para o antagonismo distingue-me, eu não me subordino à coerência: tanto incorporo a vida – ao jeito de Tarkovsky – como me entrego à função simbólica; tanto incentivo uma hipótese de ressurreição e abertura a ensaios desconhecidos (será ainda possível a Jeong-ahn ser feliz ao lado de outro companheiro?), como sou presságio de liberdade cessante (Hae Jun é perpetuamente condenado ao desconhecimento).

E termino como Wilde me descreve. A minha natureza é quebrar-me com o ar quente que me asfixia, fechando, com esta imagem, as portas a todo e qualquer simbolismo; assim me parti e assim fiquei. Ou posso alagar com o meu sangue cestas e toalhas de mesa, pressagiando o destino do infeliz Anão – magoado mortalmente no peito, incapaz, para todo o sempre, de dançar diante da Infanta sob o sol brilhante dos hortos reais.

Sofia de Melo Esteves

* O presente texto encontra-se escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico.

  1.  Tradução livre. ↩︎
  2. Whitchurch, D. M., & Griggs, C. W. (2010). Artifacts, Icons, And Pomegranates: Brigham Young University Egypt Excavation Project. Journal of the American Research Center in Egypt, 46, pp. 215–231. http://www.jstor.org/stable/41431581 
    ↩︎
  3. Garnsey, P. (1999). Food and Society in Classical Antiquity. p. 8. University of Cambridge. Tradução livre.
    ↩︎
  4. Referência ao poema “Pomegranate (Lawrence, D.H., 1923): “(…) Rosy, tender, glittering within the fissure (…)” é interpretada como uma insinuação sexual na poesia do autor. 
    ↩︎
  5. Bennett, M. (2011, Dezembro). The Pomegranate: Marker of Cyclical Time, Seeds of Eternity. International Journal of Humanities and Social Science, Vol. 1, N.º 19, p. 55.
    ↩︎
  6. Perséfone, filha de Zeus, é raptada por Hades, Deus do Submundo, que a leva a ingerir sementes de romã, com o objectivo de a fazer permanecer com ele no Mundo Inferior; selada desta forma a união entre homem e mulher, é acordado que Perséfone ficará uma parte do ano com Hades, no seu mundo, e outra parte na Terra.
    ↩︎
  7. Rosenbaum, J. (2002). Paradjanov’s Films on Soviet Folklore. Cinéaste.  https://www.jstor.org/stable/41690165  
    ↩︎
  8. Eryilmaz, C. Z. (2017/2018). Colour of Pomegranates: Mythical Sorrows of Armenian People in Central Caucasia. p. 16. Kingston University London. Tradução livre.
    ↩︎
  9. No original, Ambavi Suramis tsikhitsa (Parajanov, 1985).
    ↩︎
  10. Tarkovsky, A. (1988). Sculpting in time (K. Hunter-Blair, Trans.). University of Texas Press. Tradução livre. ↩︎
  11. Chevalier, J., Gheerbrant (1982). Dicionário dos Símbolos (Rodrigues, C., Guerra, A., Trad.). Teorema. ↩︎
  12. No original, Heojil kyolshim (Chan-Wook, 2022).
    ↩︎

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