Apresentado na competição oficial da 76.ª edição da Berlinale, Everybody Digs Bill Evans (2026), realizado por Grant Gee, propõe um olhar singular sobre o pianista de jazz norte-americano Bill Evans. Mais do que um retrato biográfico convencional, o filme centra-se num momento específico da vida do músico, já afastado dos palcos, e o título é uma referência direta ao álbum homónimo do artista, Everybody Digs Bill Evans (1959).
Ainda assim, o filme não exige um conhecimento prévio da obra do pianista. O Bill Evans aqui retratado surge como uma figura profundamente incerta do seu lugar no mundo, alguém cujo talento excecional parece pesar tanto quanto libertar. O ator norueguês Anders Danielsen Lie constrói um Evans distante, mais atraído pelo anonimato do que pelo reconhecimento público, um homem silenciosamente perturbado, dividido entre a força da sua técnica artística e uma escuridão interior que o isola. O talento, longe de ser apenas virtude, funciona também como elemento de alienação.
O filme é atravessado pela morte de Scott LaFaro, contrabaixista do trio de Evans, apresentada como uma perda devastadora. A relação entre os dois constrói-se menos pela palavra e mais pela música, numa comunhão que parece perfeita enquanto dura e cuja ruptura acaba por desestabilizar profundamente Bill Evans, afetando a forma como este se vê enquanto músico. No entanto, Everybody Digs Bill Evans não se limita à figura do músico. O filme expande-se para uma reflexão mais ampla sobre a condição artística, sobre o modo como os pais veem um filho que se torna “outro”, sobre a consciência da finitude e, sobretudo, sobre ritmo, tom e composição.
A montagem assume um papel central nesta proposta. Nos momentos iniciais, os planos são extremamente breves, por vezes com apenas alguns segundos, criando uma sensação de desorientação que ecoa a lógica do jazz. Cada plano funciona como uma nota, uma pausa ou uma figura rítmica, compondo uma partitura visual. Esta construção formal, aliada à fotografia a preto e branco, confere uma dimensão quase monumental às cenas, mesmo quando Evans se encontra num estado de profunda passividade, movido pela sua depressão. É clara a confiança de Grant Gee tanto na figura do artista como na linguagem cinematográfica que escolhe para retratá-lo. É um filme com uma realização apaixonada e definida.
Outro elemento determinante é a figura do pai de Evans, interpretada por Bill Pullman. A personagem introduz uma camada emocional decisiva, sugerindo que parte do mistério do músico reside na relação familiar. Uma cena em particular destaca-se: depois de beberem juntos, o pai chora pela primeira vez diante do filho. O momento condensa orgulho e frustração, a satisfação por o filho ter seguido o sonho de ser artista em Nova Iorque e o remorso de uma vida conformada nos subúrbios da Florida, marcada por um casamento infeliz e escolhas adiadas.
Apesar do filme à primeira vista parecer um biopic tradicional, Everybody Digs Bill Evans afasta-se deliberadamente dessa definição. O filme afirma-se sobretudo como um exercício formal que desafia expectativas narrativas e procura aproximar o cinema da lógica do jazz, com as suas contradições, improvisações e texturas. Ao fazê-lo, constrói uma narrativa sobre luto e criação que emerge da própria forma do filme. Um objeto cinematográfico assumidamente anti-forma, que prefere sugerir a explicar, e que deixa no espectador um conjunto de questões em aberto, sem nunca as enunciar de forma explícita.
Afonso Branco
