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Fucktoys: cento e quarenta minutos de caos

Depois de uma semana intensa de histórias e partilhas, o IndieLisboa encerrou a sua programação com um dos filmes mais peculiares do ano: FuckToys. O filme integra-se na secção Boca do Inferno, um espaço dedicado essencialmente a propostas experimentais e a filmes de terror, que este ano contou com catorze filmes, divididos entre sete curtas e sete longas-metragens.

A Boca do Inferno destaca-se pela sua mítica maratona anual, na qual são exibidos, de forma consecutiva, dez filmes da secção. Este ano, não se quebrou a tradição: na noite de 8 para 9 de maio, as portas do Cinema Ideal abriram-se para dar continuidade a este evento, reconhecido por ser uma experiência imersiva destinada aos cinéfilos mais destemidos. 

Nesta forte seleção, com destaques como Obsession (2025), de Curry Barker, e Dracula (2025), do realizador romeno Radu Jude – vencedor de um Urso de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) de 2021 -, FuckToys surge, talvez, como a proposta mais irreverente deste conjunto.

FuckToys (2025), de Annapurna Sriram. © Direitos Reservados

A grande impulsionadora deste filme é Annapurna Sriram, que, além de se estrear  como realizadora, assume também as funções de produtora, argumentista e protagonista.  Esta multifuncionalidade não passou  despercebida, principalmente no Festival SXSW (South by Southwest), onde ganhou o prémio especial do júri pela sua capacidade de “multi-hyphenate”, ou seja, por ter desempenhado diversas funções simultaneamente neste filme. 

Com forte influência do cinema de John Waters e de uma estética  marcadamente punk, FuckToys acompanha, a partir de um olhar feminino, a jornada de AP. Logo no começo do filme, a protagonista é confrontada com uma vidente que lhe lê a sorte e lhe confessa algo inquietante: alguém lhe rogou uma praga. Só existe uma forma de reverter esta maldição: 1000 dólares e o corpo de um cordeirinho. É a partir desse momento que a vida de AP se torna numa sucessão de acontecimentos absurdos. 

Montada na sua scooter e acompanhada pela sua melhor amiga Danni (Sadie Scott), AP, uma trabalhadora do sexo, navega de um lado para o outro pelo submundo decadente de Trashtown em busca de dinheiro para quebrar a maldição. Ao longo da sua jornada,  depara-se com figuras insólitas e diversos eventos inesperados, desde clientes estranhos e vulneráveis, com os fetiches mais bizarros, até aos mais perigosos, que a colocam em situações delicadas das quais, muitas vezes, é difícil sair. 

FuckToys (2025), de Annapurna Sriram. © Direitos Reservados

Esta premissa não nasceu do zero e está muito mais próxima da sua realidade do que imaginávamos. A realizadora e protagonista afirmou em entrevistas que começou a escrever o argumento do filme há cerca de 8 anos, inicialmente como forma de curar  o coração partido. Curiosamente, esta separação ocorreu  depois de uma vidente lhe ter dito que terminasse a relação, alegando que a mesma a deixava doente e bloqueava a sua carreira profissional.  

FuckToys surge como um trocadilho com o termo fuckboys, através do qual a realizadora quis combater a irresponsabilidade afetiva e a tendência para descartar e desconsiderar o outro nas relações, subvertendo as dinâmicas de poder. 

O filme oferece exatamente aquilo que a secção Boca do Inferno procura: um universo surrealista, acompanhado de acontecimentos absurdos que, por vezes, nos levam à loucura. Desta forma, provoca no espectador uma descarga de adrenalina ideal para o encerramento do festival.

Maria Inês Gonçalves

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