Não é descabido dizer que os grandes festivais internacionais privilegiam propostas marcadas pela inovação e pela experimentação, sobretudo nas secções de curta-metragem, tradicionalmente mais abertas à emergência de novas linguagens. Se nas competições de longa-metragem se tende a valorizar a solidez formal e narrativa, no formato curto é frequentemente a dimensão autoral e a capacidade de questionar os limites do cinema que ganham destaque. Graft Versus Host (2026), do realizador georgiano Giorgi Gago Gagoshidze, apresentado na competição de curtas-metragens da 76.ª edição da Berlinale, constitui um exemplo significativo dessa tendência.
Com cerca de 30 minutos, o filme inicia-se de forma aparentemente mais expositiva e ensaística, centrando-se no colapso da União Soviética. No entanto, rapidamente se transforma, contradiz e reorganiza, articulando diferentes camadas visuais e discursivas. É uma obra que desafia classificações imediatas e cuja força reside precisamente nessa instabilidade formal.
Imagens de arquivo do colapso soviético, incluindo momentos simbólicos como a euforia em torno da abertura do primeiro McDonald’s na Rússia, são colocadas em diálogo com imagens geradas por computador de um corpo a ser invadido por um sistema estranho. Em paralelo, o próprio médico do realizador surge em registo próximo de uma “talking head”, explicando ao espectador o tipo de cancro raro de que o cineasta que produz a obra sofre, um linfoma de células T, doença que compromete o sistema imunitário e os mecanismos de defesa do organismo.

A fase final do tratamento implica a substituição forçada de um sistema imunitário por outro, criando uma relação direta entre o processo biológico e a transformação política abordada no plano histórico. A metáfora torna-se evidente: tal como um corpo que rejeita ou integra um novo sistema, também um país atravessa fases de adaptação, conflito e reconfiguração. O filme condensa este paralelismo num registo visual caótico mas controlado, articulando o ensaio político, o documentário pessoal e a experimentação formal de forma surpreendentemente coesa.
A dimensão contemporânea do filme não se limita à mistura de técnicas ou à abordagem estética. Graft Versus Host posiciona-se ativamente face às mudanças geopolíticas e às suas consequências atuais. Ao revisitar o colapso soviético, Giorgi Gago Gagoshidze convoca o passado para refletir sobre o presente da Geórgia, país que continua a lidar com tensões internas ligadas a transformações sistémicas e identitárias. A questão que atravessa o filme permanece em aberto: quando termina, verdadeiramente, o processo de adaptação a um novo sistema?
No equilíbrio entre análise política e experiência íntima, o realizador constrói um objeto cinematográfico que alia rigor conceptual e ousadia formal. A abordagem quase clínica do tema, seja na esfera política seja na dimensão da doença, é elevada por um olhar pessoal que confere ao conjunto uma inesperada carga emocional. O resultado é uma curta-metragem estilisticamente inovadora, que pensa o cinema contemporâneo a partir da própria forma (que é uma forma eclética, entre o artificial, o digital o documental, o íntimo e humano, próprio das vivências fragmentadas atuais) e que confirma a vitalidade autoral da secção de curtas da Berlinale. Essa dimensão autoral é levada ao limite pelo próprio realizador, que assume múltiplas funções no filme, da realização à produção, da animação à direção de fotografia e montagem, revelando uma das possibilidades mais evidentes do cinema contemporâneo: a concentração criativa e técnica numa única voz.
Afonso Branco
