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No Good Men: O Beijo Que Marcou a Abertura da Berlinale

A abertura da 76ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) não poderia ter começado da melhor maneira: ousada, urgente e intensa. No Good Men, realizado e protagonizado por Shahrbanoo Sadat, realizadora afegã que marca presença nesta edição com a sua terceira longa-metragem. Este filme faz parte de um conjunto de cinco longas-metragens inspiradas nos diários autobiográficos de Anwar Hashimi, que também o protagoniza, dando vida a Qodrat, repórter de um canal de televisão em Cabul. Trata-se do terceiro filme desta série, posterior a Wolf and Sheep (2016) e Parwareshgah (2019). Filmado somente na Alemanha, No Good Men traz ao grande ecrã uma estranha dualidade: apesar de ter sido rodado na Europa, em lado algum identificamos essa atmosfera europeia; pelo contrário, somos transportados, de uma maneira (quase) invisível, para o clima afegão. 

Acompanhamos a história de Naru (Shahrbanoo Sadat), protagonista do filme, a única operadora de câmara feminina de um canal de televisão de Cabul, que luta incessantemente pela reivindicação dos direitos das mulheres. Após realizar diversas entrevistas sobre o amor a mulheres na rua, Naru fica convencida de que não existem homens bons no Afeganistão. No entanto, isso parece mudar quando conhece Qodrat, que passa de colega de trabalho mergulhado numa bolha machista para um amor recíproco e corajoso. É num clima de autêntico caos que os dois vivem um romance (im)possível. 

 No Good Men, de Shahrbanoo Sadat © Direitos Reservados

É nesta atmosfera que assistimos à ascensão dos talibãs ao poder, impossibilitando o desenvolvimento desta relação e regredindo (ainda mais) os direitos da mulher no Afeganistão. Neste contexto, Qodrat convence Naru a abandonar o país em busca de uma vida melhor e justa, mudando-se para os Estados Unidos com o seu filho, Liam (Liam Hussaini), (não só na ficção, mas também na vida real), deixando para trás um amor sincero e um casamento forçado. É nesse adeus que assistimos à última provocação do filme: o beijo entre Naru e Qodrat. Trata-se do primeiro beijo mostrado num filme afegão. Este momento recorda-nos de que o cinema e a arte são atos políticos, apesar do que afirmou Wim Wenders, o presidente do júri, na abertura desta edição, defendendo que “temos de ficar fora da política”, porque “somos o contrapeso da política, temos de fazer o trabalho do povo, não o trabalho dos políticos.” Ora num mundo onde a mulher não existe, não tem lugar, voz, nem é digna de sentir o que quer que seja, este beijo torna-se o primeiro gesto revolucionário da nova vida que a espera ansiosamente. No fundo, coloca-se à prova um sistema patriarcal que rege o país.

A simples ideia de uma comédia romântica associada a um país como o Afeganistão é algo totalmente insólito, visto que, à partida, relacionamos este território a um clima de conflito. Como referiu a cineasta numa entrevista, “continuas a viver o teu dia a dia, a amar, a beijar”, recordando que também pode haver “explosões que fecham ruas, ou até receber uma chamada a dizer que um amigo perdeu um irmão porque estava no sítio errado à hora errada. Para mim, isto é normal.” Para além do seu peso político e histórico, No Good Men cresce na entrega de Shahrbanoo Sadat, que assume o papel de realizadora, conseguindo captar Cabul de forma opressiva e caótica, e de protagonista, mergulhando, ao mesmo tempo, numa força e vulnerabilidade. 

Shahrbanoo Sadat afirma-se, desta forma, como uma voz potente e necessária da atualidade, marcando a diferença pela sua ousadia. Resta aguardar pelas duas longas-metragens que se seguirão na sequência desta série de cinco filmes, não esquecendo, com certeza, No Good Men, prometendo passar a habitar no coração de quem o vê por muito mais do que as suas duas horas de duração.

Maria Gonçalves e Beatriz Santos

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