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76ª Berlinale (2026) Críticas Festivais de Cinema

O Nosso Paradise – Era Óbvio, Mas Nunca Iríamos Adivinhar

Paradise, a primeira longa-metragem do realizador Jérémy Comte teve a sua estreia na secção Panorama da 76ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale de 12 a 22 de fevereiro). Esta co-produção franco-canadiana foi escrita por Comte – um realizador que chamou a atenção em 2019 com uma nomeação para os Óscares pela sua curta-metragem Fauve (2018) – em parceria com o cineasta ganês e residente no Canadá, Will Niava.

Protagonizado pelos estreantes Joey Boivin-Desmeules (Kojo) e Daniel Atsu Hukporti (Tony), ambos incorporam personagens de grande contenção emocional, cujos conflitos interiores e transformação são profundamente humanas. Evelyne de la Chenelière, como Chantal, tem uma presença comovente e Benjamin Delali Kwawu (Azu) impõe-se como uma figura inquietante e igualmente trágica, com uma dureza que resulta de uma vida sem grande margem para escolha. 

Desde os seus primeiros minutos, Paradise instala-se numa experiência circular: uma praia em Gana e uma voz masculina que reconta como salvou um capitão americano de um barco em chamas. Esta sequência inaugural, que só mais tarde ganha pleno significado, é um enigma de um gesto que se repetirá ao longo de toda a narrativa: regressar ao início para tentar compreender o fim e salvar para ser salvo. 

Dividido em três partes, o filme situa-se em Gana e no Quebeque, ligando dois jovens separados por um oceano, mas que partilham um sentimento persistente de não-pertença e de uma ausência paterna.

Durante a primeira parte conhecemos Kojo (Joey Boivin-Desmeules), o jovem ganês que cresce entre o trabalho precário e artesanal dos pescadores, a igreja e o conforto que encontra em filmes como O Despertar da Mente (2004), de Michel Gondry. Torna-se óbvio que aquele mundo é demasiado pequeno para ele. Inteligente e sensível, mas extremamente deslocado, Kojo observa com fascínio um grupo de gangues locais e o poder simbólico do dinheiro, no qual vê a solução para as suas inquietações e a liberdade pela qual anseia. 

Contudo, o pai tenta afastá-lo desse caminho, lembrando-o do seu potencial. Mais tarde, uma tempestade aproxima-se e Kojo passa a noite fora. Mal sabia que quando acordasse no dia seguinte a sua vida nunca mais seria a mesma: o seu pai havia desaparecido após ter ido à sua procura em alto mar. Este acontecimento marca um ponto de rutura irreversível. Kojo, agora sem a figura ética e protetora que o seu pai representava, vê-se sozinho no mundo e sela o seu destino ao juntar-se a uma organização criminosa, com a ajuda do seu amigo, Azu (Benjamin Delali Kwawu). Posteriormente, as consequências deste ato ecoam do outro lado do mundo. 

Daniel Atsu Hukporti em Paradise  de Jérémy Comte CAN, FRA, GHA 2026, Panorama © Entract Studios, Constellation Productions

Já no Quebeque, conhecemos Tony (Daniel Atsu Hukporti), um jovem rebelde que se sente igualmente deslocado. O facto de nunca ter conhecido o seu pai causa nele uma grande frustração, como uma ferida que insiste em não sarar por lhe estar sempre a arrancar a crosta. Quando descobre que a sua mãe, Chantal (Evelyne de la Chenelière), mantém uma relação online com um capitão americano, Scott Caswell, a esperança de Tony retorna, ao pensar ter encontrado o seu pai. 

Porém, tudo se complica quando Chantal pede que Scott devolva o dinheiro que lhe emprestou para uma operação em Gana, após o seu barco ter sofrido um incêndio, e apercebemo-nos que do outro lado da linha está, na realidade, Kojo, que inventara a identidade de Scott para, mais tarde, lhe extorquir dinheiro.  Sabemos, também, que a história do americano resgatado foi algo que o seu pai lhe havia contado quando era pequeno. Deitado à beira-mar, o capitão torna-se Kojo, consumido pelas chamas.

No entanto, por detrás da máscara criminosa, Kojo sente algo genuíno por Chantal e volta a ligar-lhe, na esperança que esta vá ter com ele a Gana para se conhecerem. Após perceber que a mãe fora enganada, Tony é consumido pelo desejo de vingança e insiste que seja feita uma queixa na polícia. Ao partir para Gana, Jérémy Comte cruza definitivamente estes dois mundos. 

Posteriormente, o seu plano para capturar Kojo falha e após ser capturado pelo mesmo, juntamente com Azu e outros membros do grupo, Tony consegue escapar, roubando uma mota.  

A sequência de perseguição fecha o círculo narrativo de forma trágica, mas é, também, quando o filme atinge o seu lado mais poético. Tony tem um acidente, a mota fica em chamas e Kojo socorre-o.  Já no hospital, repleto de queimaduras, Tony fala com a sua mãe ao telefone. Kojo, outrora conhecido por “church boy”, reza ao seu lado para que este melhore e que a operação corra bem. A imagem que se segue é talvez uma das mais belas: Tony afunda-se no colchão e o buraco que deixa enche-se de chamas que, num vazio, o passam a consumir enquanto pede mais ketamina. Este vazio torna-se num vasto céu estrelado onde uma estrela brilha com mais intensidade e culmina num hospital onde uma criança com queimaduras chora e é reconfortado pelo colo de uma mãe. São Chantal e Tony, cujo destino já estava escrito na sua pele ou cujo pai que julgava precisar fora sempre a sua mãe, o seu paraíso.

Contudo, apesar da sua cinematografia imersiva e particularmente sensorial (com fogo, água e respiração) e uma montagem inteligente, nem tudo no filme é inteiramente conseguido. O ritmo e a narrativa inicial demoram algum tempo a captar a atenção do espectador e certas ideias, como a relação de Kojo e Chantal, nunca são realmente exploradas, servindo apenas como meio para atingir o fim. Não obstante, oferece-nos um retrato bastante realista daquilo que Comte ilustra: um mal que se propaga como uma doença: o dinheiro. Através de uma história que detalha as repercussões de um mundo enlouquecido pelo seu poder corruptor, que distorce sistemas de valores e reduz vidas à ruína, permanece, assim, um tópico pertinente nos dias que correm. No entanto, não elimina a hipótese de redenção sob a sua influência. 

Finalmente, o filme deixa uma sensação de vazio produtivo, na medida em que parece apenas o prólogo de um filme que começa onde termina e que cabe agora a cada espectador continuar e pensar. 

O desfecho devolve-nos à praia onde tudo começou. À beira-mar, Kojo, o capitão e náufrago, foi salvo (talvez por Tony) de perder-se num vasto mar ardente do dinheiro que outrora o consumia. Vemos um barco que desaparece entre as ondas, tornando-se uno com o mar. É Kojo quem o observa, renascido das cinzas como um novo homem, com um olhar lacrimejante, sozinho, mas aparentemente sereno, posto no horizonte. Por fim, a tela escurece enquanto ouvimos o som das ondas. Como continuar a partir daqui? Talvez a partir da mensagem mais esperançosa do filme: Tudo vai e vem e não importa o país, o meio ou o oceano que nos separa: não estamos sozinhos e há sempre alguém, algures, a sentir o mesmo que nós. 

Beatriz Santos

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