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76ª Berlinale (2026) Berlinale

O que define uma curta-metragem na Berlinale Shorts

A secção Berlinale Shorts apresenta, na edição de 2026 da Berlinale, um conjunto de obras que exploram a experimentação formal, o ensaio cinematográfico e a relação com a memória e o arquivo, reafirmando a curta-metragem como um espaço de liberdade estética dentro do festival.

Segundo o regulamento da Berlinale, uma curta-metragem é definida por critérios objetivos: não ultrapassar os 30 minutos de duração e não ter sido exibida anteriormente noutro festival. No entanto, estas regras funcionam apenas como enquadramento técnico de submissão. O processo de seleção, sobretudo num festival com o reconhecimento internacional da Berlinale, levanta questões mais amplas relacionadas com curadoria, tendências formais e modos de pensar o cinema contemporâneo.

A secção Berlinale Shorts tem-se afirmado como um território privilegiado para obras que escapam a estruturas narrativas convencionais. Na edição de 2026, a programação aponta para uma presença significativa de filmes associados ao que frequentemente se designa como cinema “experimental”, termo aqui entendido de forma aberta e não normativa. Mais do que um género fechado, trata-se de um campo de investigação formal onde a curta-metragem surge como espaço de risco e exploração.

Flim Flam by Siegfried A. Fruhauf AUT 2026, Berlinale Shorts © sixpackfilm

Entre os filmes selecionados para a Berlinale Shorts, destaca-se Flim Flan (2026), de Siegfried A. Fruhauf, uma animação que visa ser uma reflexão visual e acústica sobre a percepção, o engano, a verdade e a própria forma do cinema, descrito como “an experimental film that wants to be experienced”, sublinhando uma proposta sensorial e imersiva. Já Graft Versus Host (2026), de Giorgi Gago Gagoshidze, apresenta-se como um speculative video essay, assumindo explicitamente uma estrutura ensaística. Em Plan Contraplan (2026), de Radu Jude (Do Not Expect Too Much from the End of the World, 2023, Bad Luck Banging or Loony Porn, 2021) e Adrian Cioflâncă (historiador que já colaborou com Radu Jude em outros filmes que têm a imagem de arquivo como base), a obra é descrita como um photo essay construído a partir de imagens dos anos 1980 sobre a realidade judaica na Roménia.

Plan contraplan | Shot Reverse Shot by Radu Jude, Adrian Cioflâncă ROU 2026, Berlinale Shorts © Edward Serotta

O termo “ensaio” surge, assim, como um possível eixo comum entre várias obras da secção, sugerindo abordagens híbridas que cruzam cinema, pensamento crítico e experimentação formal. Essa relação com o passado, a memória e o arquivo reaparece noutros títulos da Berlinale Shorts. Em Kontrewers (2026), de Zuza Banasińska, imagens de arquivo, encenadas e documentais confundem-se, questionando fronteiras entre registos. Miriam (2026), de Karla Condado, assume a forma de uma carta-filmada dirigida a uma tia assassinada pelo companheiro, enquanto Mit einem freundlichen Gruss (2026) constrói-se a partir de mais de 400 cartas de candidatura encontradas numa fábrica abandonada da antiga RDA, revelando fragmentos de vidas e circunstâncias de uma geração. Embora breves, estas descrições apontam para uma programação marcada pela investigação da memória individual e coletiva, pelo uso do arquivo como matéria cinematográfica e pela experimentação de formatos. A curta-metragem surge aqui não como um formato secundário, mas como um espaço de condensação e intensidade, capaz de articular múltiplas temporalidades e linguagens.

Miriam by Karla Condado MEX 2026, Berlinale Shorts © Karla Condado, León Boltvinik

A Berlinale Shorts reafirma, assim, a curta-metragem como um cinema que atravessa fronteiras formais, históricas e emocionais. Num contexto em que a longa-metragem é frequentemente encarada como o formato dominante do cinema, esta secção evidencia o potencial da curta-metragem para explorar caminhos menos previsíveis e propor experiências cinematográficas singulares. Independentemente dos critérios específicos que orientam a seleção, a programação da Berlinale Shorts 2026 destaca-se pela diversidade de abordagens e pelo investimento na experimentação, consolidando esta secção como um espaço transgressivo e central dentro do festival.

Afonso Branco

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