Talvez o filme mais aguardado na competição oficial da 76ª edição da Berlinale, Rosebush Pruning promete não passar despercebido: milionários excêntricos, mentiras que vêm à superfície e um mergulho numa espiral de violência e loucura que vive (ou não) do choque que provoca.
O filme de Karim Aïnouz, escrito por Efthimis Filippou (colaborador de Yorgos Lanthinos e nome no qual é impossível não pensar, se formos familiarizados com a sua obra), parte de uma inspiração livre de Punhos Cerrados (1965), do cineasta italiano Marco Belocchio, num ataque sarcástico à burguesia e à atual sociedade de consomo.
Rosebush Pruning retrata uma família americana a viver na Catalunha. Jack (Jamie Bell), Ed (Callum Turner), Robert (Lukas Cage) e Anna (Riley Keough) procuram amor e validação entre si enquanto lidam com o luto da sua mãe (Pamela Anderson) e reconfortam o seu pai cego e autoritário (Tracy Letts). Sem responsabilidades e isolados do mundo e a sua realidade, usufruem de uma fortuna herdada após a morte da sua mãe. Contudo, tudo começa a desmoronar-se quando Jack, o irmão mais velho e uma âncora na família, anuncia que planeia sair de casa para ir morar com a sua namorada, Martha (Elle Fanning).
Quem nos narra a história deste núcleo disfuncional, cujos valores estão alinhados com os estereótipos de uma família obscenamente rica, é Ed que, lentamente, vai descobrindo os seus fetiches e segredos mais sombrios, incluindo a verdade por detrás da morte da sua mãe, que está viva e é, também, a razão pela qual o seu pai é cego.

Karim Aïnouz ilumina a podridão que envolve a alta burguesia. É capaz de provocar desconforto e incomodar alguns, como a discussão constrangedora sobre a aparência de Martha quando é apresentada à família de Jack, desde os olhos azuis, a marca dos acessórios até ao tamanho dos seus seios.
A perversão corre nas veias de cada um dos personagens e cada reviravolta é mais absurda do que a anterior. No entanto, nem sempre é fácil encontrar humor nestas revelações. Entre filmar o repreensível, o incesto e fetiches por sangue (humano e animal), à maneira de Saltburn (2023) de Emerald Fennel, com uma naturalidade desconcertante, Rosebush Pruning enche-nos de expectativas esvaziadas por ideias soltas que nos chocam apenas momentaneamente e nada contribuem para o enredo. Contudo, o comportamento contorcido destas personagens e as consequências que dele resultam tornam o filme de Karim Aïnouz numa interessante exploração de poder dentro de uma família patriarcal.
Já as suas cores vibrantes, por outro lado, destacam-se e contribuem para um elemento onírico visual que por sua vez, juntamente com a banda sonora e a montagem, reforçam a sensação de estarmos a assistir a uma alucinação.
O título de abertura prevê o desfecho: as roseiras são a família, cujos ramos precisam de ser podados para poderem continuar a crescer. Deste modo, esta sátira diz-nos que a burguesia, da qual fazem parte, precisa de desaparecer ou, pelo menos, perder o seu charme. Um a um (como pétalas), vemos uma família que se elimina a si própria. Paradoxalmente, a montagem final mostra-nos as rosas que sobram (Martha e Jack) que eventualmente crescerão novamente e, assim, continuarão este ciclo vicioso no qual mergulham com orgulho.
No seu melhor, não deixa de ser uma experiência imersiva de puro entretenimento. Afinal de conta, que mais poderá acontecer? Sobrará, certamente, um debate que promete dividir opiniões entre críticos e o público.
Beatriz Santos
