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Conclave: Das Batinas Imaculadas e do Homem Imperfeito

A Igreja é-nos revelada como uma fotografia. Ambas convocam um passado, impelem à descoberta do presente e desafiam os caminhos do futuro. Olhamos para a Igreja tal como para a imagem, “(…) como sendo, ao mesmo tempo, paixões e questões”1. Ela é um fenómeno que, para se criar, reclamou o cérebro dos homens, essa fonte de luz, umas vezes apaziguadora, outras, intensa e perturbadora. Para se manter e assumir posição, navegou pelo tempo, captou ideais, “(…) precisou da longa história de uma aventura icónica”2.

Essa analogia entre a imagem e a Igreja é susceptível de se apoderar de nós em Conclave (2024). Com os seus grandes planos de encarnados e brancos – nutridos por um guarda-roupa impoluto (paradoxo com a construção diegética) –-, a simetria dos elementos enquadrados, a ambiência da arte italiana, o filme de Edward Berger, baseado na literatura ficcional de Robert Harris, conquista-nos, desde logo, pelas assunções explícitas: a cisão entre entrega a Deus e confiança na instituição; a nociva certeza, em contraste com a dúvida que sustenta a fé; a defectibilidade do ser humano e a quimera de acreditar que a figura máxima da Igreja se afasta desta premissa. 

Como thriller de conspiração em período eleitoral, Conclave tem por inerência uma inevitável abordagem à ambição ao poder. Mas a esta acresce a exploração do pensamento eclesiástico. Como fenómeno que provém de mentalidades, ele oscila entre conservadorismo e uma visão mais liberal do corpo social. Conclave elege Tedesco (Sergio Castellitto) como candidato conservador, oferecendo a Bellini (Stanley Tucci) o posicionamento progressista. Tremblay (John Lithgow), Adeyemi (Lucian Msamati) e Benitez (Carlos Diehz) surgem como os mais misteriosos; Lawrence (Ralph Fiennes) é o gestor escolhido para coordenar a votação.

A intriga invade a narrativa em registo ininterrupto, intensificando-se com o precioso contributo da enigmática banda sonora composta por Volker Bertelmann [autor do tema imponente de uma outra realização de Berger, All Quiet on the Western Front (2022)]. As descobertas inesperadas sucedem-se e, dessa forma, impedem que o nosso foco se disperse. A par das maquinações nos bastidores do Vaticano, são tratados temas de peso na esfera religiosa – sexo e género –-, adoptando-se um relato coerente (não necessariamente realista) e desprovido de complexidades, ocasionalmente presentes em obras semelhantes. 

Em 1955, Papa Pio XII, num dos seus discursos3, proferiu as seguintes palavras: “o filme ideal é aquele que, de forma perfeita e harmoniosa, corresponde às exigências originais e essenciais do próprio homem”4 Conclave, no seu arrojo, distancia-se da tradição; expõe o aliciamento, arrisca na excentricidade. Não caberá, em princípio, na idealização de Sua Santidade. Ou será que, exactamente por tudo isso – e excepcionando uma ou outra fantasia -, o filme de Berger é a boa nova que tantos fiéis anseiam espalhar?

Sofia de Melo Esteves

* O presente texto encontra-se escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico.

  1. Samain, Etienne. As peles da fotografia; fenómeno, memória/arquivo, desejo. Visualidades, Goiânia v.10 n.1, p. 151-164, jan-jun 2012. ↩︎
  2. Idem. ↩︎
  3. Discorsi sul film ideale (Discourses on Ideal Film, 1955). ↩︎
  4. Fanchi, M. “The ‘Ideal Film’: on the Transformation of the Italian Catholic Film and Media Policy in the 1950s and the 1960s”. Moralizing Cinema – Film, Catholicism and Power. Ed. Biltereyst, D. & Gennari, D.T. Taylor & Francis. 2015. Tradução livre. ↩︎

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