Uma brisa doce-amarga atravessa alguns filmes deste ano da Competição Nacional do IndieLisboa. Entre Óculos de Sol Pretos, de Pedro Ramalhete, A Providência e a Guitarra, de João Nicolau, e Dois e um Gato, de Patrícia Saramago, sopra um gênero de comédia feita de histórias tristinhas, mas contadas por narradores espertinhos, em estado de graça, que fazem do cinema um espelho lúdico de amarguras e idealizações. Há por detrás de cada um deles um certo dispositivo metalinguístico que, ao final, aponta para a difícil posição de ser um fazedor de filmes em Portugal em meados da terceira década do século XXI — como se se perguntassem, a cada corte: “pra quê serve isso tudo que nós fazemos?”. E é pela comédia e pela autorreferência que estes filmes desfraldam possíveis respostas: se nem sempre bandeiras ao vento, ao menos roupas em estendais.
No caso de Óculos de Sol Pretos, o dispositivo metacinematográfico é explícito, a começar já no primeiro plano, a equipa real do filme a apontar a câmera ao espectador (ou à própria câmera), um espelho do que virá: a narrativa acompanha João (Henrique Gil), rapaz meio totó, meio sem sal, e plenamente sem emprego, reencontrado por Clara (Júlia Valente), antiga colega de escola de cinema que o convida para ser assistente de produção num filme em rodagem, onde ela mesma está também nessa função. O enredo acompanha os bastidores desse filme dentro do filme, expondo como os sonhos algo românticos do protagonista são confrontados com a precariedade afetiva e laboral do meio, marcado por equipas hierarquizadas, diretores abusivos, e produtores autoritários. Ao mesmo tempo, o amor que João cultiva devagarinho por Clara sugere uma singela redenção para isto tudo, um “apesar de tudo” que parece ser a própria mensagem do filme, sintetizada na cena final da festa de fim de rodagem, onde toda a equipa confraterniza, com direito a partida de futebol. Sente-se assim que a comédia em Óculos de Sol Pretos é a forma que o filme tem de oferecer uma espécie de promessa efêmera, de futuro no hoje: amanhã João voltará à posição inicial, mas hoje algo pode ser vivido como alegria.
Já em A Providência e a Guitarra vemos duas histórias em paralelo interpretadas pelos mesmos atores: na primeira, no século XIX, dois artistas itinerantes, Leon (Pedro Inês) e Elvira (Clara Riedenstein), esforçam-se para apresentar-se na pacata cidade de Covarronca, e vêem-se perseguidos pelo Comissário da polícia (Américo Silva, excelente); na segunda, nos dias de hoje, acompanhamos a banda de rock Desgraça, e as brigas entre seus integrantes. A metalinguagem não está somente na narrativa que fala da vida de artistas, mas num testar de sucessivos modos de representação: teatro popular, musical folk, melodrama romântico, cinema histórico e fantasia coexistem sem que nenhum se imponha definitivamente. O jogo da montagem paralela cria relações e pequenos comentários entre uma história e outra até o ponto em que de fato se influenciam, fazendo repercutir no passado as ações dos personagens no presente. Repleto de números musicais e de leituras de textos de teatro (os melhores momentos do filme), o filme evidentemente não poupa diálogos para pensar sobre a posição frágil dos artistas em tempos pouco amistosos à arte. Outra vez, a comédia faz do romantismo dos protagonistas o calorzinho passageiro para resistir a esses tempos sombrios.
Por fim, Dois e um Gato coloca em cena um jovem casal, Joana (Alice Ruiz) e João (Mateus Alho), e o gato Manel (Manel) dentro de um quarto cuja renda não conseguem pagar. Todo o filme se passa dentro dessas quatro paredes, entre roupas penduradas, louça suja, e cadernos de anatomia. Ainda que narrativamente menos metalinguístico que os anteriores, sua montagem e encenação criam no filme um espaço de jogo pouco naturalista, feito para ser visto, com brincadeiras à nouvelle vague intercalando-se com diálogos em que os personagens refletem sobre as dificuldades materiais de realizarem seus desejos — falta de emprego, de recursos, de tempo — outra vez fazendo da forma alegre do filme a própria reversão performativa (e efêmera) dessas impossibilidades. Se não podemos passar pela porta, saímos pela janela. Com o gato.

Assim, nos três filmes, este tipo de comédia ligeira metalinguística funciona como estratégia tanto estética quanto política: rir, cantar, improvisar tornam-se maneiras de resistir à precariedade material e emocional. Mais que isso, ao lembrar-nos constantemente de que estamos diante de construções — filmes sobre pessoas que representam — parecem encontrar na comédia uma forma de partilha: menos cerebral do que afetiva, menos teórica do que musical, mas igualmente reflexiva. Entretanto, chama a atenção o esforço por representar personagens marcadamente ingênuos, algo infantis, não apenas despreparados para suas tarefas, mas emocionalmente imaturos para os desafios que têm pela frente. Se, por um lado, seus ares de criança fazem soprar esta leveza da comédia, por outro, parece que o próprio mundo precisa ser amaciado pelo filme para sustentá-los agradavelmente. Em outras palavras, apesar dos pequenos percalços relativos à precariedade da vida de artista, talvez faltem aos filmes zonas mais sombrias, decisões impossíveis para seus heróis, alguma tristeza. Algo a se perder. Sem este contraponto, aquela partilha da comédia fica sem contraste e profundidade, e pode-se confundir com privilégio ou capricho. A força dos filmes está, ao contrário, nos momentos que conseguem fazer soprar aquela brisa do “apesar de tudo”: quando Clara hesita ao ver João ser humilhado pelo chefe eletricista na frente da equipa — esse olhar; quando Leon e Elvira desafiam o Comissário com uma canção debaixo da sua janela — esse despeito; quando João e Joana fogem de tudo com tudo — isso tudo (inclusive o gato). Porque são momentos que fazem da comédia um modo de vida, a coragem diária de poder narrar a si mesmo, interrompendo o fluxo de demandas incessantes às quais somos empurrados.
É bonito que, nos três filmes, esse gesto comum sempre culmine com as personagens a dançar abraçadas. Pra quê serve isso tudo que nós fazemos? Talvez só para dançar coladinho de alguém.
Ian Capillé
